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Monguba. Coluna do Paladar, edição de 05 de outubro de 2016

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Já  ia me esquecendo. Hoje teve coluna do Paladar. Está no Estadão impresso, lá no blog do Caderno e aqui também. 

MONGUBA

Meu contato mais intenso com estas castanhas se deu recentemente quando estive no Espírito Santo. No caminho sombreado e verde para a praia do Coqueiral de Aracruz avistei algumas árvores carregadas de mongubas ou mungubas, muitas ao alcance das mãos e um bom tanto já no chão. Acho que foi a primeira vez que pude coletar alguns quilos desta preciosidade cuja fama ainda não a alcançou.  Não tardará, pois estão pipocando trabalhos sobre seu efeito hipoglicemiante e composição nutricional, com boa proporção de ácidos graxos desejáveis e proteínas.

Fora parte da população amazônica, alguns poucos cozinheiros curiosos pela cultura regional ou pesquisadores que vivem tentando revelar o potencial alimentício e econômicos dos nossos recursos vegetais, pouca gente dá importância para a árvore, parente das paineiras, que ladeia avenidas em grandes cidades como Goiânia ou forma maciços floridos como no Aterro do Flamengo, no Rio.  Mesmo aqui em São Paulo, podemos encontrar estas árvores perto do Parque da Juventude e em tantos outros bairros,  mas sempre como planta ornamental com lindas flores de desenho rococó.  Ah, se soubessem o que abriga aquele fruto marrom e aveludado com cara de cruzamento de cacau com cupuaçu.  As castanhas marrons, forjadas como trufas se confundem no chão com seixos rolados e se soltam do fruto quando este se abre espontaneamente na hora certa da maturação.  A pele coriácea que envolve cada semente se solta facilmente e assim podemos degustar as castanhas mesmo cruas, quando têm sabor de amendoim de consistência crocante e tenra. 

Nativa da America Central e norte da América do Sul, a espécie Pachira aquaticapode ser vista facilmente em terras úmidas e alagadiças da floresta amazônica, daí o nome científico da espécie, aquatica.  No entanto, é uma árvore tão rústica e resiliente que se adapta a condições diversas, tanto de clima quanto de solo. E ainda, devido à beleza de suas folhas brilhosas, pode ser cultivada como planta de interior - às vezes com os caules entrelaçados como se faz em  Taiwan, onde é comum ter a planta em vasos nos escritórios, quase como um amuleto para trazer boa sorte. No ambiente natural ela pode alcançar 60 metros.

No Brasil, a introdução da árvore no paisagismo urbano começou em São Paulo e Rio de Janeiro na década de 1960, graças ao trabalho de Burle Marx.  Então,  é compreensível que muita gente veja aqueles frutos e fique na dúvida se são ou não comestíveis.  Eu mesma, desde que tenho o blog, recebo todos os anos fotos do fruto com a pergunta: sabe que fruto é este? Pode comer?

Felizmente a resposta é sempre sim. Cruas, cozidas, assadas, trituradas como farinha, as castanhas são deliciosas e apenas um fruto pode render alimento para quase uma família. Ela é parente de uma outra castanheira, o amendoim de árvore, Bombacopsis glabra, que recebe os mesmos nomes populares: castanha-do-maranhão, mamorana, cacau-selvagem, cacau-do-maranhão entre outros.  Esta também produz castanhas comestíveis e gostosas, porém o fruto é menor, verde e não aveludado.

Há estudos mostrando o alto porcentual de boas gorduras nas sementes e isto pode representar alternativas mais saudáveis de óleos comestíveis à nossa disposição, porém a maioria dos estudos sobre plantas oleaginosas comestíveis que tenho visto visa identificar fontes potenciais de óleo para biodiesel e não para alimento, sobrando-nos  o consolo de sementes pouco oleosas como a soja da qual se extrai a porção gordurosa à força dos solventes que sempre deixam resíduos.  Resta-nos, porém, a sorte de termos estas plantas espalhadas pelas ruas do Brasil. Assim como voltamos a fazer em casa nossos próprios fermentados, nossas bebidas, os pães e defumados,  logo poderemos fazer nossos próprios óleos que usaremos comedidamente em pratos especiais.

Eu já tinha comido monguba antes, mas nunca tão novas como estas que encontrei em Aracruz.  Frescas são leitosas, branquinhas e tenras e neste estágio podem ser comidas cruas. Depois de alguns dias, ficam mais firmes e murchas mas estão boas para cozinhar.
Para conservá-las por mais tempo, é bom embalar em plástico e guardar na geladeira.  Outra ideia é congelar já depois de cozidas e despeladas.  A pele sai fácil quando cozida, bastando fazer um pequeno corte e apertar, que a castanha limpa sai como tremoço.

Como foi a primeira vez que consegui uma grande quantidade, pude fazer alguns testes com as castanhas cozidas – quando cruas, apenas comi como petisco e posso dizer que isto é algo viciante.  Fui dirigindo os preparos de acordo com a aparência e sabor. Lembra amendoim? Que tal um hommus?  Tem cara de chapéu de cogumelo? E se trouxer alguns outros pra fazer companhia?  São como batatinhas de conserva? E se temperá-las com azeite e ervas? E assim fui fazendo.  Pareciam tantas, mas logo se acabaram, me deixando o desejo de encontrar a próxima árvore carregada.

Sei que muita gente vai se sentir frustrada por não ter como comprar mongubas no mercado - pelo menos não aqui em São Paulo, mas como às vezes é a demanda que cria o mercado, pode chegar na feira ou no mercado e perguntar:  ‘ onde fica a monguba?’  ou ‘quando chega a monguba?’.   Tenho certeza que há muitos produtores por aí deixando monguba apodrecer no chão.   E sempre temos a chance de encontrar uma árvore dessas carregada de frutos dando sopa por aí.

Felizmente sei também que muita gente de outros lugares do país não vai sentir frustração nenhuma, pois tem facilidade de colher os frutos nas árvores das ruas e quintais e também não vai ver nenhuma novidade em tudo o que estou dizendo, mas talvez se sinta estimulada a explorar mais as possibilidades de uso.  Quem conhecia a planta mas não sabia que as castanhas eram comestíveis, agora pode se aventurar na cozinha inventando moda.
E quem sabe um dia vamos ter nossas castanhas, como o baru, o licuri, a castanha de pequi,  o amendoim-de-árvore e a monguba  ocupando os mesmos espaços de gôndola que nozes, amêndoas, pistaches e avelãs importados. É só a gente ir mudando o foco.

Enquanto isto, deixo aqui um jeito simples e rápido de preparar.  Antes de fazer a receita, cozinhe as castanhas e, se quiser, mantenha-as congeladas.

Como cozinhar: lave as castanhas, coloque numa panela, cubra com água e leve ao fogo. Cozinhe por cerca de 20 minutos ou até ficar macia à mordida.  Com uma faca de legume, faça um corte na casca e aperte para a castanha escorregar.  Embale e congele ou use imediatamente.



Cogumelos com monguba

2 colheres (sopa) de manteiga
2 colheres (sopa) de molho de soja (shoyu)
250 g de castanhas de monguba cozidas
500 g de cogumelos variados ou de um só tipo  –  de paris, pleurotus, shiimegi
Meia pimenta dedo-de-moça sem sementes cortada em tirinhas
Meia xícara de cebolinha picada

Numa frigideira coloque a manteiga e o shoyu, leve ao fogo e misture até a manteiga derreter. Junte as castanhas e misture bem. Em seguida, acrescente os cogumelos (se usar cogumelo-de-paris, coloque-o uns 2  minutos antes que os demais). Misture  e deixe cozinhar por cerca de 2 minutos ou até que fiquem macios. Prove o sal e junte mais shoyu se necessário.  Desligue o fogo, junte a pimenta e a cebolinha. Sirva com arroz branco.

Rende: 4 porções 

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